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Barragens, espécies invasoras e poluição ameaçam biodiversidade do Rio Paranapanema

Dia do Rio Paranapanema: 22 espécies de peixes estão ameaçadas na bacia, aponta pesquisa Com cerca de 929 quilômetros de extensão, o Rio Paranapanema nasce...

Barragens, espécies invasoras e poluição ameaçam biodiversidade do Rio Paranapanema
Barragens, espécies invasoras e poluição ameaçam biodiversidade do Rio Paranapanema (Foto: Reprodução)

Dia do Rio Paranapanema: 22 espécies de peixes estão ameaçadas na bacia, aponta pesquisa Com cerca de 929 quilômetros de extensão, o Rio Paranapanema nasce em Capão Bonito (SP), na Serra de Agudos Grandes, e deságua no Rio Paraná, na região da divisa entre São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. Ao longo de seu percurso, o rio abriga diversas espécies de peixes nativos e apresenta uma rica biodiversidade. Nesta quinta-feira (27), é celebrado o Dia do Rio Paranapanema. Para marcar a data, o g1 conversou com o biológo Mário Luís Orsi, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que desenvolve projetos e pesquisas acadêmicas sobre as espécies de peixes encontradas ao longo do rio. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp De acordo com Mário Luís, nas áreas de invasões biológicas e conservação de espécies aquáticas, são registrados atualmente 226 espécies de peixes na bacia do Paranapanema. Dessas, 116 são nativas e 60 estão classificadas como não nativas. “Um dos rios com mais espécies exóticas invasoras do sudeste e sul do Brasil. Algumas espécies possuem distribuição generalizada em toda a bacia. Porém, as espécies mais ameaçadas, ocorrem em poucas regiões, como as cabeceiras da bacia, no Estado de São Paulo, próximo a sua nascente”, explicou o professor. O Rio Paranapanema e seus afluentes passam por 115 cidades do interior paulista Arquivo pessoal/CBH Paranapanema 🐟 Espécies ameaçadas de extinção Na universidade paranaense, Mário é responsável pelo Laboratório de Ecologia Aquática e Conservação de Espécies Nativas (LEACEN) e coordenador do Laboratório de Ecologia de Peixes e Invasões Biológicas (LEPIB). O professor aponta quais são as causas que prejudicam a vida aquática e quais são as espécies ameaçadas. “Nosso grupo foi o primeiro a fazer todo inventário da fauna de peixes para o Paranapanema. Isso possibilitou toda uma sequência de pesquisas que estão possibilitando várias possibilidades de políticas públicas de conservação e manutenção da bacia”, relatou. Mário Orsi é biólogo e orientador na pós-graduação de Ciências Biológicas na Universidade Estadual de Londrina Arquivo pessoal/Mário Luís Orsi Entre os problemas enfrentados, o professor destacou que as espécies migradoras como dourados, curimbatás, piaparas, pintados e piaus estão com suas áreas de distribuição restritas, em função das barragens que fragmentaram a bacia e, consequentemente, prejudicam os animais. Segundo Orsi, ao todo, são 22 espécies de peixes ameaçadas de extinção. “Sendo algumas icônicas como o Dourado, pintado, Surubim, Pacu, Caranha e diversos pequenos cascudos e lambaris. Dessas, só existe um programa de proteção para os Dourados e Pintados, mas nenhuma se encontra protegida na bacia." O Rio Paranapanema nasce em Capão Bonito e deságua no Rio Paraná Arquivo pessoal/Mário Luís Orsi Um outro impacto destacado por Mário são os peixes invasores, como as Corvinas, Tucunarés, Bagre Africano, Carpa, Cascudo Bodó, Cascudo Chinelo, entre outros. “E em processo de invasão, devido aos criatórios de tanques rede, temos a tilápia do nilo, a qual estamos alertando conjuntamente com outras sobre o problema há vários anos. Como avaliação prévia, temos ao menos 25 espécies já invasoras e causando diversos impactos sobre a fauna nativa de peixes e outros organismos, bem como ao funcionamento desse ecossistema”, destacou. LEIA TAMBÉM: Três animais ameaçados de extinção morrem atropelados em rodovias do interior de SP em dois dias: 'Perda absurda', diz biólogo Estiagem e queimadas atraem ouriços a áreas urbanas no interior de SP; saiba evitar acidentes Banners viram sacolas verdes e reflorestamento ajuda na produtividade de fazenda no interior de SP Mas como esses animais não nativos chegaram ao rio? Mário explica que elas foram introduzidas de forma não intencional e, dessa maneira, passaram por diversos filtros ambientais e ecológicos, tornando-se invasoras no espaço. As espécies invasoras podem competir por recursos, modificar os ambientes e interferir na qualidade da água. Além disso, podem reduzir o sucesso reprodutivo de peixes nativos e predar ovos, contribuindo para a perda de biodiversidade e afetando o funcionamento do ecossistema. “Podem interferir nas cadeias alimentares e na predação de espécies nativas. Os tucunarés já extinguiram 7 espécies de peixes pequenos no baixo Paranapanema”, citou o professor. O professor é responsável por laboratórios científicos e atua nas áreas de invasões biológicas e conservação de espécies aquáticas Arquivo pessoal/Mário Luís Orsi Sobre a qualidade de vida dos peixes encontrados no Rio Paranapanema, Orsi destacou que, embora ainda sejam necessários mais investimentos em estudos para avaliar a situação, problemas já foram identificados. Segundo ele, há registros de espécies contaminadas por agrotóxicos, além da presença de parasitas e patógenos. “Outro problema que vem causando efeitos sobre a reprodução dos peixes é a qualidade da água em toda bacia, como turbidez excessiva em alguns períodos e transparência da água em outros, além da depleção do volume de água como causa das barragens, uso inadequados das águas e mudança climática”, citou. O especialista também chamou a atenção para um problema mais recente que tem preocupado os pesquisadores: a proliferação de plantas aquáticas. Segundo Orsi, essas espécies podem afetar a qualidade da água e, consequentemente, as condições de vida dos peixes, somando-se aos impactos provocados pelas espécies invasoras. 🌳 Rio peculiar No entanto, os peixes não são os únicos fatores que podem afetar o equilíbrio do rio. Outro problema identificado atualmente é a contaminação provocada pela ação humana, que também pode comprometer a qualidade do ambiente aquático. Mário explicou ainda que, ao longo de toda a extensão do Rio Paranapanema, a bacia está inserida no bioma da Mata Atlântica. “O Paranapanema é muito peculiar, pois a vegetação na sua cabeceira ainda proporciona funções fantásticas que auxiliam na qualidade de água. Porém, ao longo do seu percurso, o desmatamento é intenso e há trechos em que mata ciliar deixou de existir dando lugar a ocupação desordenada do bioma”. 🔎Mata ciliar é a vegetação nativa que cresce e protege as margens de rios, lagos, córregos e nascentes. O nome vem da comparação com o corpo humano. Assim como os cílios protegem os nossos olhos contra cisco e poeira, essa vegetação protege os cursos d'água contra impurezas. O Dia do Rio Paranapanema é celebrado, anualmente, em 27 de agosto Arquivo pessoal/CBH Paranapanema Para o acadêmico, os fatores que podem colocar em risco a sobrevivência da fauna e da flora do rio atuam de forma sinérgica, gerando consequências diretas e indiretas. Entre os principais, estão: Uso e ocupação do solo de forma equivocada; Presença das barragens e operação sem consideração a atributos biológicos e ecológicos das espécies; Ausência de áreas de proteção permanente ou ocorrência sem adequação com a legislação; Efluentes orgânicos e inorgânicos difusos ao longo da bacia de drenagem; Solturas de peixes sem necessidade e sem base científica; Pesca esportiva desenfreada; Aquicultura em tanques-rede, com base em espécies exóticas invasoras como a tilápia e sem controle dos insumos utilizados; Uso descontrolado de agrotóxicos próximo às margens do rio; Uso dos recursos hídricos como irrigação sem controle e fiscalização; Pesca predatória, inclusive próximo às barragens e em afluentes de importância ecológica; Tratamento de esgoto sanitário e industrial ineficiente; Ausência da proteção de tributários comprovadamente importantes na conservação de peixes e outros organismos aquáticos nativos. O professor reforçou que a perda de funções ecológicas, provocada pela influência desses fatores sobre a bacia, pode resultar na redução dos serviços ambientais e, gradualmente, transformar o ecossistema em um sistema empobrecido. Entre as principais consequências, está o risco de comprometimento da oferta de água de qualidade, além do aumento da perda de habitats adequados para diferentes espécies, incluindo os seres humanos. “É o típico 'efeito dominó' sobre o que a bacia pode fornecer. As mudanças climáticas precisam ser mais estudadas na bacia. Outro fato é a questão do nível das águas, temperatura e a disponibilidade, o que tem consequências que poderão ser motivo até de extinções locais”, completou. A bacia hidrográfica tem cerca de 105,9 mil km² e abrange 247 municípios, entre São Paulo e o Paraná Arquivo pessoal/CBH Paranapanema Importante para diversas espécies de animais e para milhões de pessoas, o Rio Paranapanema também tem um significado especial para o professor. Foi a partir do estudo do rio que Orsi desenvolveu parte de sua trajetória acadêmica e de pesquisa. “Conseguimos desenvolver trabalhos que foram pioneiros no Brasil para os estudos de peixes e conservação dos mesmos. O Paranapanema ainda pode ser um exemplo para propostas e execução de ações de conservação e proteção de ambientes aquáticos. É um rio fantástico, com enorme potencial a se tornar exemplo de como manter corretamente uma bacia hidrográfica”, concluiu. 🏞️ Bacia do Paranapanema Ao percorrer o interior paulista, é possível perceber a dimensão do Rio Paranapanema e de seus afluentes. Segundo a Agência de Águas do Estado de São Paulo (SP-Águas), a bacia hidrográfica do Paranapanema possui cerca de 105,9 mil km² e abrange 247 municípios dos estados de São Paulo e Paraná. Ainda conforme a agência, o Paranapanema é considerado um dos principais rios de São Paulo e um importante afluente do Rio Paraná. O curso d’água tem papel estratégico no abastecimento, na irrigação, na geração de energia, nas atividades econômicas, no turismo e na conservação ambiental. Em 2024, 88% dos 24 pontos monitorados na vertente paulista da bacia foram classificados como “Ótima” ou “Boa” Arquivo pessoal/CBH Paranapanema Embora não exista um ranking oficial que estabeleça uma classificação geral sobre a qualidade da água do rio, a SP-Águas informou que, segundo dados de 2024 da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), 88% dos 24 pontos monitorados na vertente paulista da bacia foram classificados como de qualidade “Ótima” ou “Boa”, de acordo com o Índice de Qualidade das Águas (IQA). Para manter a qualidade da água, por meio do Programa Rios Vivos, a agência realizou e prevê serviços de desassoreamento em rios e córregos de municípios da região do Paranapanema, o que deve contribuir para a melhoria das condições dos cursos d’água. Em nota ao g1, o governo estadual disse que a gestão do rio envolve os governos de São Paulo e Paraná, a União, os municípios, órgãos ambientais e de recursos hídricos, universidades, usuários e comitês de bacia. São registrados 226 espécies de peixes na bacia do Paranapanema, sendo 116 nativas e 60 invasoras Arquivo pessoal/CBH Paranapanema 📍Responsabilidade do rio O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paranapanema (CBH Paranapanema) é uma das instituições responsáveis pela gestão dos recursos hídricos da região. À reportagem, o comitê explicou que sua principal função é promover a gestão integrada e participativa das águas da bacia, articulando os diferentes setores envolvidos, discutindo problemas, estabelecendo prioridades e aprovando instrumentos de planejamento e gestão. “Para o CBH Paranapanema, o rio deve ser compreendido não apenas como um curso d’água, mas como um sistema ambiental, social e econômico que conecta dois estados e milhões de pessoas. Sua importância também está na capacidade de integração. O rio conecta diferentes territórios, usuários e interesses e, por isso, exige uma gestão que considere a bacia como um todo”, diz a nota. Ao g1, o professor da UEL apontou que, em toda a sua extensão, o bioma da bacia é a Mata Atlântica Arquivo pessoal/CBH Paranapanema O comitê reforçou que é necessário garantir condições adequadas para a preservação da biodiversidade. Entre os principais desafios apontados pela organização estão: Fragmentação do rio pelos reservatórios: a sequência de barramentos modifica o regime natural do rio e pode dificultar o deslocamento de espécies migradoras; Conservação da biodiversidade: a presença de espécies ameaçadas e endêmicas exige a manutenção e recuperação de habitats; Conservação de matas ciliares e nascentes: A recuperação das áreas degradadas é essencial para reduzir erosão, assoreamento e entrada de sedimentos e nutrientes nos cursos de água; Segurança hídrica: eventos de estiagem prolongada demonstram a necessidade de planejamento integrado dos usos da água. Em 2026, o próprio CBH Paranapanema acompanhou a recuperação da bacia após um período prolongado de seca; Mudanças no uso do solo e atividades produtivas: a expansão agrícola e urbana exige medidas permanentes para reduzir impactos sobre os recursos hídricos. O cômite aponta que a conservação da fauna aquática exige uma combinação de ações, como monitoramento das populações de peixes e de outros organismos aquáticos; preservação e recuperação de habitats; recuperação de matas ciliares e nascentes; proteção de áreas de reprodução e desenvolvimento dos peixes e outras. Na região de Itapetininga, o rio e seus afluentes percorrem cidades como Capão Bonito, Piraju, Timburi, Sarapuí e outras Arquivo pessoal/CBH Paranapanema *Colaborou sob a supervisão de Larissa Pandori Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM